O Marxismo Hoje!
«(...) Como a verdade absoluta não está sujeita a condições de espaço e de tempo, nem ao desenvolvimento histórico da humanidade, só o acaso pode decidir quando e onde essa descoberta se revelará. Acrescente-se a isso que a verdade absoluta, a razão e a justiça variam com os fundadores de cada escola; e como o carácter específico da verdade absoluta, da razão e da justiça está condicionado por sua vez, em cada um deles, pela inteligência pessoal, condições de vida, estado de cultura e disciplina mental, resulta que nesse conflito de verdades absolutas a única solução é que elas se vão acomodando umas às outras. (...) Para converter o socialismo em ciência era necessário, antes de tudo, situá-lo no terreno da realidade».
Engels. In "Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico"
Assim é que, volvidos 150 anos depois da publicação do Manifesto do Partido Comunista (Londres, Janeiro de 1848), para que os resultados das lutas travadas pelas várias organizações, movimentos marxistas sejam efectivos, é imprescindível atermo-nos apenas à realidade, de forma inteiramente lúcida.
Sem arroubos de emocionalidade ruidosa, livres de ideias preconcebidas, podemos analisar a evolução da sociedade e o estado actual das coisas para, com base no que compreendemos e no que verdadeiramente queremos, definir a orientação mais funcional.
Desenvolvimentos Dialécticos
Podemos verificar, através do raciocínio, mas também experimentalmente, como é correcta a análise da dialéctica da História da Sociedade.
Na realidade, isso decorre do facto de a natureza dialéctica ser uma propriedade de tudo o que nos rodeia. Assim é que, na Natureza podemos observar que tudo se passa pelo movimento dos pólos opostos (o dia e a noite, as estações do ano, a vida e a morte, etc.). Cada movimento, cada coisa, tarde ou cedo converte-se sempre no seu oposto. Ou, mais correctamente: cada coisa já contém em si, em embrião, o seu oposto.
Mesmo o nosso modo de inteligir a realidade não é linear, salvo raríssimas excepções. O nosso pensamento geralmente obedece ao princípio da "Tese, Antítese, Síntese", sendo que esta é sempre imperfeita e provisória.
Os opostos são assim indissociáveis. A Física ensina ainda que quando carregamos electricamente um pólo positivo de um corpo, fortalecemos inevitavelmente as propriedades negativas do pólo contrário desse mesmo corpo.
Também sabemos que nada dura. A ciência da dialéctica demonstra que tudo está condenado ao "ininterrupto subir, brilhar e perecer".
Com base na comprovação prática destes princípios, observáveis mesmo na vida diária de cada um, podemos fazer as seguintes perguntas:
1- Como é possível estabelecer algum dia, no planeta, o Socialismo, ou mesmo o Comunismo, sem que, inevitavelmente, isso se converta no seu oposto?
Por outras palavras, como é possível, cientificamente, sair da dialéctica?
Não pretendemos ao colocar esta questão defender que é impossível. Pelo contrário. Mais adiante iremos aprofundar esta questão num sentido mais conclusivo.
Com esta questão, solicitamos a participação de todos para intervir nesta e noutras questões, avançando com explicações práticas sobre, por exemplo, como tornar viável o estabelecimento de uma ordem não-dialéctica, duradoura - como um enclave de uma outra natureza - na ordem natural das coisas.
Num capítulo adiante, pretendemos também dar um contributo para a resolução destas insuficiências.
2- Para colocarmos a segunda questão, precisamos primeiro referir que muitos marxistas de diversas tendências ainda se debatem com um grave problema, que interfere com a sua própria compreensão das coisas e entrava ou desvia a prossecução de uma acção consertada em sentido positivo. Esse problema é o do ódio. Na realidade, todos nós estamos imbuídos de um profundo ressentimento contra a injustiça. Na realidade, todos alguma vez somos vítimas do ódio quando vemos e comprovamos na nossa pele ou na dos outros (mas na nossa principalmente), a hipocrisia burguesa e o canibalismo prepotente a que foi chamado Liberalismo Capitalista.
Na verdade, a nossa legítima indignação só estaria desforrada quando, de um golpe, pegássemos em armas e esmagássemos o opressor e puníssemos a falsa moral pequeno-burguesa hoje vigente.
Como é possível que nos roubem a energia e o tempo das nossas vidas, sem que sintamos ódio?
No entanto, também é verdade que o ódio gera ódio e quase sempre o juiz torna-se em carrasco e o carrasco em assassino.
Sendo tudo inerentemente dialéctico, colocamos finalmente a pergunta: como é possível que, cheios de ódio possamos fazer vencer a justiça?... O nosso ódio não gerará sempre a reacção contrária, igualmente imbuída de ódio?
E, no caso de esmagarmos pela força o lado contrário, como impedir que a nossa cólera não nos torne iguais àqueles que odiamos?
Sobre este assunto, temos confiança na evolução da História. As novas gerações começam a ter uma visão mais aberta em relação a estas coisas. No Maio de 68 não houve mortos. E o 25 de Abril português foi a Revolução dos Cravos. Talvez sejam fracos exemplos, pois não se trataram de revoluções no verdadeiro sentido da palavra, mas o Comunismo evolui como tudo o resto e a violência vai sendo posta de parte. O programa do P.C.U.S., adoptado no vigésimo-segundo congresso, em 1961, precisa que, «nas condições actuais, certos países podem passar para o Socialismo sem insurreição armada e sem guerra civil». Nos anos 70, Maurice Thorez declarava que «na realidade, a classe operária está interessada em levar a cabo a revolução socialista por meios pacíficos que permitam evitar a perturbação e a desorganização das forças produtivas. O uso da violência nunca é o resultado de uma preferência dos trabalhadores».
Hoje, principalmente entre os jovens, começa a instalar-se a noção de que o ódio e a inteligência são inimigos irreconciliáveis.
Lenine refere que «todo o movimento popular toma formas infinitamente diversas, elaborando constantemente novas, rejeitando as antigas, criando variedades ou novas combinações de velhas e novas formas».
Ghandi, por exemplo, desenvolveu uma ciência de não-violência (que não significava passividade), mas de intenção resoluta e determinada, que se revelou altamente eficaz para a libertação do povo indiano das garras do imperialismo inglês.
Não pretendemos aqui fazer a apologia da não-violência, nem tão pouco de qualquer forma especial de comportamento. Não se trata de uma questão moral; nenhum de nós sabe se pegaria em armas e que actos realizaria, até chegar a um momento de crise. Temos profundo respeito por todos aqueles que se armaram e reagiram violentamente contra os seus carcereiros e contra os déspotas.
Só salientamos que se torna nítido que, para que sejam verdadeiramente eficientes, é necessário erradicar de todos os movimentos marxistas os sentimentos de ódio que se expressam principalmente em pequenos actos que se vêm a revelar, a longo ou mesmo a médio prazo, de menor eficácia e sem resultados positivos profundos.
Sem que isto aconteça, nunca a unidade será possível.
A guerra de todos contra todos
O nosso grande problema é que os conflitos, o choque de interesses entre indivíduos e entre grupos na sociedade, advêm da guerra de classes que se entrechocam por interesses contrários, mas cuja raiz do problema nem sempre é apenas social, no sentido estritamente económico.
Embora seja correcta e indiscutível e mais que provada a análise da História movendo-se pela luta de classes, existem também guerras ferozes entre grupos, que não têm nada a ver com classes sociais. Sabemos que dentro desses grupos existem guerras, por vezes sangrentas, por motivos nem sempre absolutamente racionais. Assistimos a conflitos terríveis entre membros de pequenos núcleos, mesmo sendo participantes da mesma ideologia, da mesma classe, do mesmo partido, da mesma religião, por vezes (muitas vezes) da mesma família. Entre casais, ou entre pais e filhos já testemunhámos quantas vezes a tentativa de um lado procurar por todos os meios esmagar o outro, suprimi-lo, ou neutralizá-lo.
E o que dizer dos conflitos interiores, que todos temos, muitas vezes autodestrutivos, cujas guerras embora se passem nos subterrâneos do inconsciente - como o explica a Psicologia moderna - a maior parte das vezes têm consequências catastróficas na vida exterior?
Se estivermos imbuídos de ódio, de ressentimento, de conflito e agressão, o que vai acontecer aos nossos opositores, quando o Estado for um Estado Socialista?
Aplicamos contra eles a violência necessária. Tudo bem. Então, e quantas vidas serão necessárias para suprimir a oposição à realização do programa? E, depois da primeira oposição, quantas pessoas como nós teremos de matar para neutralizar a reacção?... E depois? ... E os inimigos de fora?... E, mesmo que já não hajam inimigos de fora, quando a revolução for planetária, como eliminar os que não forem a favor?... Como evitar as dissidências?... Como impedir a criação de tendências?
Como evitar a guerra, que gera a guerra, que gera a guerra...?
Que vanguarda se acha preparada para ditar a justiça?... Que vanguarda possui visão esclarecida para levar a cabo a edificação da sociedade comunista?
Que vanguarda se encontra totalmente desprovida de ódio e violência, sem problemas, em inteira lucidez?
Vanguardas Invencíveis
O único modo seguro de cada um encaminhar a sua vida é o de, com todo o respeito por todos aqueles que trabalham na direcção dos partidos, movimentos e organizações de base marxista, cada um se assumir a si mesmo como elemento de vanguarda.
Se as massas se confiam e entregam, sem mais nada, a uma suposta vanguarda "iluminada", isso representará a derrocada do Socialismo. Isto não é nada de novo.
Ao contrário, se cada um se compreender a si próprio como um representante, uma amostra completa do planeta inteiro, com tudo incluído – sociedade, classes, guerras, ódio, injustiças, justiça, beleza, verdade – a revolução total do seu sistema de vida será talvez possível.
Nesta acepção, aceitando que em cada um de nós existem todas as características da Humanidade (como uma célula em relação ao organismo), poderemos perguntar:
Se encontrarmos respostas objectivas a estas perguntas e formos consequentes com as conclusões a que chegarmos, poderemos realizar acções nas nossas próprias vidas, que culminem numa revolução absolutamente radical no inteiro sistema do nosso próprio ser.
Com isso desenvolveremos uma ciência que nos permitirá intervir com muita sabedoria e de modo muito concreto e eficiente em toda a sociedade.
Podemos ainda continuar, e questionar: a que corresponde no nosso sistema de vida individual, o anseio por Liberdade e Justiça expresso pelas massas?
Ou mesmo, a que corresponde em nós próprios, o movimento que na sociedade procura lutar pela meta do comunismo?
A resposta será interessante. Só aí começaremos a compreender.
O Materialismo actual
Com o surgimento do pensamento materialista, a civilização ocidental conseguiu expurgar até certo ponto, de muitos sectores da ciência, grande parte das influências irracionais do pensamento supersticioso e dos intelectos subjugados a dogmas de toda a espécie, a começar pelos dogmas da religião que, pelo seu carácter entorpecedor foi definido por Marx como "o ópio do povo".
A ciência materialista, que se atem ao que é exclusivamente passível de ser provado pela percepção directa, ou pelo raciocínio, é, com efeito, o modo seguro de avançar na tarefa colectiva de procura de conhecimento. Até mesmo filósofos que não eram partidários do materialismo, reconheceram a veracidade desta afirmação. Por exemplo, Rudolf Steiner (filósofo austríaco, 1861-1925), comentou num dos seus trabalhos que "a ciência materialista, se levada a cabo de modo inteiramente honesto, desembocará inevitavelmente no mundo do espírito".
Não obstante, torna-se necessário, depois de expulsar as ideias forçadas dos padres e dos "demagogos da ciência", não voltar a cair em novos dogmas.
Para muitos, a discussão de se saber "se é o espírito que emana da matéria, ou se é a matéria que emana do espírito", ainda não chegou a um fim conclusivo. Também não pretendemos adiantar nada a esta discussão, que nos ultrapassa em conhecimentos e, além do mais, não nos interessa.
Talvez não estejam totalmente errados aqueles que sugerem que afirmar peremptoriamente que não existe o divino, seja tão incongruente como afirmar o contrário. Para estes, o ateísmo puro é comparável à crendice teológica, também ela muito bem fundamentada em raciocínios brilhantemente estruturados.
Pode ser também que, seguindo esta linha de raciocínio, o agnosticismo morno e acomodado, seja ainda a pior das hipóteses.
No fundo, é tudo uma questão de honestidade intelectual.
Todas as religiões actuais revelam contradições com o seu próprio ensinamento, no desamor à verdade científica e, principalmente, no seu apego irresistível pelo poder.
Mas também nós mostraremos falta de maturidade intelectual se, nas nossas pesquisas, seja em que área do conhecimento for, não pusermos todas as hipóteses. Mostraremos ausência de interesse científico e de honestidade profissional, sempre que ignorarmos factos e teorias que não se encaixam com os paradigmas em voga.
Deepack Chopra – um dos maiores especialistas mundiais, que trabalha na pesquisa das áreas da Medicina, Medicina Neuronal e na Física – provou como o psiquismo determina o funcionamento de todo o sistema físico orgânico. Nas suas pesquisas (algumas estão publicadas em português sob o título "Corpo Sem Idade, Mente sem Fronteiras") foi demonstrado algo que vinha a ocupar diversos especialistas de várias áreas da comunidade científica mundial; entre outras coisas, tem-se vindo a provar que o psiquismo (as ideias, aspirações íntimas, os estados de espírito, etc.), condicionam totalmente o funcionamento do sistema imunitário e do envelhecimento, ou regeneração, celular.
Também no 1º Simpósio Internacional da Fundação Bial, realizado em 1996 na Universidade do Porto, subordinado ao tema "Aquém e Além do Cérebro", autoridades nos domínios da Psicologia, Psiquiatria e neurologia apresentaram resultados de experiências tanto ou mais surpreendentes.
Estas são algumas descobertas que, não obstante o reaccionarismo dos sectores mais conservadores da nossa sociedade, talvez possam ser os fundamentos para uma verdadeira revolução das mentalidades. Uma revolução deste género, não poderá deixar de ter consequências materiais.
O Besouro Determinante
O materialismo Histórico, como é hoje aceite, trata-se de uma doutrina enunciada por Marx e Engels que explica o passado histórico da Humanidade, as suas relações com o presente, e, também, que desenvolvimentos esse presente poderá ter no futuro. Associada a este método de análise (que trouxe bastante luz e esclarecimento para o estudo da História, que não dava grande importância entre outras coisas, aos aspectos económicos e sociais), existe o Determinismo Histórico. Este, decorre da observação e da análise da História, que permitiu estabelecer um padrão, que é sempre o mesmo e que se desenvolve sempre de um modo mais ou menos perfeitamente previsível ao longo do tempo.
A esta concepção, Staline complementou insuficiências e, na opinião de milhares de pessoas, adaptou-as ao seu tempo.
Também hoje com os modernos avanços da ciência, muitos sistemas deterministas são postos em causa. Entre outras, uma das teorias que se opõe a estas concepções é a teoria da Complexidade. Esta teoria afirma que não é sempre possível determinar ou prever o comportamento de um sistema, qualquer que seja. Podemos definir regras ou descobrir um padrão definido acerca de uma determinada realidade. Mas este padrão, esta realidade estão sempre em interacção com outros agentes inesperados, proporcionando todos os desenvolvimentos. Edgar Morin, no seu trabalho de "Introdução ao Pensamento Complexo" refere que, em relação ao determinismo "o pensamento complexo acha-o insuficiente". Nas suas obras dá inúmeros exemplos disso. Um deles é o do paradigma da Termodinâmica. Esta ciência define que podem voar os corpos cuja relação entre variantes como o peso, as dimensões e a estrutura obedeçam a certo padrão. Este padrão estabelece uma baliza, com diversas variáveis, que delimita o que é possível voar do que é impossível. Pondo este paradigma em prática, vemos que bate infalivelmente certo; quer através de experiências com módulos, quer observando exemplos da natureza, todas as coisas que voam obedecem àqueles critérios.
Mas, um dia, foi descoberta uma excepção. O besouro.
Para todos os efeitos, é cientificamente impossível que o besouro voe. E, no entanto, voa!
Segundo a nossa regra-padrão as dimensões, a estrutura e o peso do besouro não lhe permitem sequer planar. Mas o nosso atrevido insecto não se preocupa com isso e voa, bastante bem e por onde quer.
Outro exemplo é o da ciência do Caos, que tem sido o resultado do estudo da observação de desenvolvimentos complexos e inesperados, mesmo em sistemas simples. Aqui, especialistas de diversos ramos das ciências exactas e humanas, vêem-se a braços com a tarefa de encontrar ordem (relações lógicas) onde aparentemente não há. As descobertas levam a concluir que, não obstante se descubra ordem em tudo, esta revela-se "criativa", tomando novas formas inesperadas e absolutamente fantásticas. «Físicos, biólogos, astrónomos e economistas criaram e estão a desenvolver uma nova forma de compreender a complexidade crescente da natureza. Esta nova ciência estabelece a existência de ordem e padrões, onde só antes o casual, o errático e o imprevisível eram observáveis» - in "Caos", James Gleick.
A ordem expressa-se precisamente através das multipossibilidades. A natureza deixa de nos aparecer como um relógio mecânico, monótono e aborrecido, com as suas roldanas repetitivas. Uma ideia patente também em todas as obras Stephen Hawking, um dos maiores génios da Física Quântica da actualidade. Torna-se emocionante depararmo-nos com os desenvolvimentos que um sistema, seja ele social, político, económico ou biológico pode tomar.
Assim, cabe-nos a todos, com os pés bem assentes na terra, a observação real, sempre desperta, do momento presente, para decidir que medidas tomar. Só seremos verdadeiramente livres se realizarmos a cada dia acções concretas, visando a nossa própria auto-realização, dispensando filtros do passado e condicionalismos futuros.
As possibilidades são imensas. A revolução não tem que ser num futuro distante. Pode ser já. Mais do que a tomada e o controlo dos meios de produção, deve ser sempre a tomada de poder e o controlo da nossa própria vida.
Liberdade.
A Revolução, Já!
Uma das formas clássicas de aprisionamento e a neutralização das massas é o da "promessa do amanhã". Sacerdotes de civilizações diferentes das nossas, perante o descontentamento e a agitação dos milhões de fieis, avisam: se te resignares, se suportares com paciência, mais tarde, noutra vida terás tudo o que hoje não tens. O padre, apela ao povo: sossegai, se fordes fieis agora, mais tarde, depois da morte, ireis para o céu. No Império Romano, os escravos, se trabalhassem bem e não dessem problemas, talvez lhes fosse mais tarde concedida a liberdade; ou então poderiam comprá-la; os seus filhos ou os netos poderiam mesmo vir a ser cidadãos romanos; mais tarde, o seu bisneto talvez chegasse a Imperador. Também hoje a sociedade de consumo faz o mesmo em relação a todos, que se sacrificam pelo mais tarde. O burro puxa a carroça correndo atrás da cenoura pendurada à frente do seu focinho e não compreende que é o carroceiro que segura a vara..
O caminho para a Revolução Socialista, naturalmente, depende de um programa que tem de ser cumprido no tempo. Mas isso não pode ser um pretexto para colocarmos o centro das nossas vidas no amanhã, no mais tarde...
A Revolução da sociedade pode começar já! Como? Primeiro de tudo com uma observação objectiva:
Um operário. Ganha o ordenado mínimo. Trabalha oito horas por dia e gasta três horas e dinheiro em transportes públicos. Tem filhos. Nunca saberá o que fazem durante o dia. Espera que nada de mal, que vá tudo bem. O subsídio de risco que recebe é uma anedota de humor negro. A mulher, velha e gasta antes do tempo, ganha pouco menos. É um casamento que forçosamente tem de dar certo; não sobreviveriam de outro modo. Não teve muitas hipóteses na sua educação e ao longo da vida, para ser outra coisa. Tem uma doença de deformação física de estar agarrado à máquina e dentro si tem raiva, não sabe exactamente contra quê.
É visível que é explorado. Por quem? É óbvio que é por quem toma as decisões acerca do seu ordenado e sobre as suas condições de trabalho. Um empresário. Ganha 50 vezes mais do que o operário.
Continuando a análise de modo muito realista:
O empresário. Trabalha até muito depois da hora de jantar e quase sempre também aos fins de semana. Vai de férias (talvez para uma ilha do outro lado do mundo) com os dois telemóveis, que nunca larga, mais o fax. Traz ainda a esposa que não conhece, mais os filhos que nunca vê. Provavelmente vão ser como ele; tudo se encaminha para isso. Vive subjugado pelo medo, pelo terror constante de ser derrotado. De perder tudo. Ou de perder muito. Ás vezes é um perigo real. O mundo dos negócios não perdoa. É podre de rico, mas não pode comprar a liberdade. Tenta convencer-se que sim. Ganhou uma úlcera, depressões nervosas combatidas com Prozak e talvez um cancro ou a doença de Alzeimer pelos 50 anos. Ganhou também uma insensibilidade contra o sofrimento alheio e, desde cedo, um egoísmo brutal.
Reflectindo bem, também este é obviamente explorado (e não é pouco!), mas quando olhamos, não é nítido por quem... Dir-se-ía que é explorado por uma entidade invisível que o obriga e o subjuga. O carcereiro é prisioneiro daqueles a quem guarda. Poderíamos responder: "Sim, mas o carcereiro, se quiser, pode deixar de o ser, enquanto o prisioneiro não". Só que nem uma coisa nem outra são totalmente verdade, o carcereiro quase não tem liberdade mental para sequer pôr essa hipótese. Na realidade, é normal que essa ideia já lhe tenha assomado à cabeça mas, enquanto o prisioneiro vê bem que não é livre e só por isso já deseja a liberdade, o carcereiro envolve-se a si próprio na ilusão de que está liberto. Um erro que lhe custa caro. Também ele tem liberdade de escolha. Mas também ele está muito condicionado. Malhas mentais e emocionais, esquemas, o modo de fazer, mais forte que grades e algemas. Na realidade, é o sistema. Não apenas o sistema político, social ou económico. Mas o sistema de consciência. O Software, que tem de ser alterado. Com urgência.
Mas, como?
O surgimento do Novo Homem
Na "Polis – Enciclopédia da Sociedade e do Estado" podemos ler, num dos capítulos sobre Marxismo: «A alienação significa a perda do homem na exterioridade das suas obras – na religião, na filosofia, no Estado, na classe social, no produto do seu trabalho –, que se voltam contra ele, impedindo a livre expansão das suas possibilidades. Da crítica das alienações, desde as mais remotas e abstractas, até às mais próximas e concretas, emerge em ausência e aspiração, o tipo ideal de homem que dá corpo ao humanismo de Marx.».
Revolução significa evolução noutro sentido. Pôr em marcha a revolução é, como atrás foi referido, iniciar um processo de cura.. Começa por nos libertarmos das milhares de alienações que nos envolvem, libertarmo-nos das grilhetas dos conceitos arcaicos, dizermos adeus às ilusões a que nos apegámos e que consumimos diariamente e termos a coragem e a firmeza de tomar atitudes, quer no âmbito da vida estritamente pessoal, quer na vida colectiva.
No fundo é simples: em vez de agirmos por impulsos, em vez de vivermos automaticamente, como robôs, podemos tomar as rédeas das nossas vidas, agirmos sempre a cada minuto de cada hora do dia, segundo a nossa concepção mais profunda do que é correcto. Sem questões morais burguesas. Sem esperarmos aprovação, nem temermos reprovação. Agindo assim, desbloqueamo-nos; a consciência de nós mesmos e do mundo expande-se. Ficamos mais inteligentes e mais lúcidos. Talvez mais livres ou, pelo menos, mais fortes, mais preparados para quebrar outras grilhetas, antes impossíveis, antes mesmo invisíveis.
Assim, paulatinamente, estaremos menos enredados nas malhas. Seremos mais livres do sistema. Mais úteis para o colectivo. Mais inteiros.
Talvez não adiante muito fazer a revolução no mundo, se continuarmos presos entre as paredes dos nossos crâneos. Se fizermos a revolução em nós, isso desencadeará uma reacção em cadeia, imparável.
Só assim, como refere Georges Cogniot, «será normal a conduta autenticamente humana fundada na liberdade e na igualdade das pessoas, no seu enriquecimento recíproco e o aumento indefinido da sua vitalidade realizadora».
Isso é: a cada dia que passa, a cada hora e a cada momento da nossa vida, não agirmos segundo o que os nossos medos dizem que é o mais seguro, mas agirmos conforme o nosso coração desejaria. Conduzirmos os nossos destinos não pelo caminho que imaginamos ou concluímos que é (quase sempre aparentemente) onde temos mais coisas a ganhar, ou que é mais lucrativo, mas sim por aquilo que mais nos realiza intimamente.
Nada de transcendental. Trata-se sobretudo de coisas práticas, do dia-a-dia. Apenas em cada momento fazermos o que nesse momento (e não noutro) nos daria a mais íntima satisfação. Sem concessões.
Isso é um grande contributo que podemos dar a nós próprios e ao colectivo humano.
Neste preciso momento, somos já livres para dar o primeiro passo em direcção à vida.
Quem tiver interesse em responder, dar a sua opinião ou expressar o seu ponto de vista, pode fazê-lo escrevendo para: Apartado nº 162, 2710 Sintra.